terça-feira, 13 de maio de 2025

Entrevista com Mirtes Daniele, uma das autoras do livro Policiais Penais da Paraíba - PERFIS



A produção do livro Policiais Penais da Paraíba – PERFIS – segue em ritmo dentro da programação para lançamento da obra provavelmente em setembro. Disponibilizamos aqui a entrevista com a policial penal e atual diretora da Penitenciária Valentina Figueiredo.


Qual foi a impressão nos primeiros dias ou meses no sistema prisional paraibano e por onde começou, qual unidade?


Minha trajetória no sistema prisional paraibano teve início na Penitenciária de Segurança Máxima Romeu Gonçalves de Abrantes – PB1, unidade conhecida pelo perfil de internos de alta periculosidade e pelo rígido controle de segurança. À época, as imediações da unidade eram escassamente povoadas, rodeadas por mata fechada, o que acentuava a sensação de isolamento e vulnerabilidade. Ao me aproximar da unidade, meu estado de alerta se ativava de forma quase instintiva — um reflexo de tensão constante e vigilância contínua.

A tensão era constante. O sentimento que predominava era o da vigilância absoluta, uma adaptação forçada à dureza do ambiente. Não havia espaço para ingenuidade: ali, aprendia-se rápido que o profissional da execução penal precisa estar sempre atento, firme, preparado para reagir diante do inesperado. O foco era claro — sobreviver. Sobrevivência física, emocional e profissional em um cenário hostil, onde o risco era contínuo e a fragilidade, um luxo que não se podia permitir. Eu me travestia de força, mas por dentro, o medo e a insegurança habitavam silenciosamente.

Esse início árduo foi determinante na formação da profissional que me tornei: resiliente, vigilante e plenamente consciente da complexidade e da responsabilidade que envolve a missão de atuar no sistema prisional.

Passados esses anos, em quais unidades prisionais atuou e quais as funções/cargos exerceu? Nos conte tópicos de sua trajetória até aqui.


Ao longo dos anos, minha trajetória profissional no sistema prisional paraibano foi marcada por experiências em diferentes unidades e pelo exercício de múltiplas funções, que contribuíram significativamente para a construção de uma visão ampla, técnica e humana da gestão penitenciária. A seguir, destaco os principais marcos dessa caminhada:

Penitenciária de Segurança Máxima Romeu Gonçalves de Abrantes – PB1: ponto de partida da minha carreira, onde tive o primeiro contato com a complexidade do sistema prisional e desenvolvi os pilares da vigilância, resiliência e discernimento profissional;

Penitenciária Padrão de Santa Rita: unidade que deu continuidade ao processo de amadurecimento funcional, com vivências operacionais que ampliaram minha compreensão sobre a rotina prisional;

Cadeia Pública de Bayeux: primeira experiência em uma unidade de menor porte, onde o contato mais direto com a população carcerária e com a equipe gestora favoreceu o desenvolvimento de habilidades em mediação e liderança;

Gerência de Inteligência e Segurança Orgânica (GISOP): atuação como analista, oportunidade em que aprofundei minha formação técnica e estratégica, com ênfase em segurança orgânica, análise de perfis e leitura de cenários operacionais;

Direção da Cadeia Pública de Bayeux: retorno à unidade, desta vez na condição de gestora, exercendo a função de diretora, com foco na reestruturação organizacional e fortalecimento das rotinas de segurança e atendimento;

Direção da Penitenciária de Reeducação Feminina Maria Júlia Maranhão: importante marco em minha carreira, onde atuei diretamente com a população feminina privada de liberdade, enfrentando desafios complexos e assumindo uma posição de liderança sensível às especificidades de gênero. Nesse período, implementei ações de reestruturação administrativa e promovi melhorias nas rotinas de segurança e no atendimento às PPLs;

Presídio Desembargador Silvio Porto: unidade de grande porte e complexidade, onde atuei no setor de Arquivo, colaborando com a organização administrativa da unidade e participando ativamente de projetos de ressocialização;

Coordenação para Planejamento e Implementação da Comissão Técnica de Classificação (CTC): Atuo como ponto focal da SENAPPEN na Paraíba e fui nomeada coordenadora do projeto piloto que implantou os processos de classificação no estado. A convite da SENAPPEN, participei de uma ação no Estado do Amapá, onde atuei por 34 dias na classificação de todas as pessoas privadas de liberdade daquela unidade federativa. Essa experiência ampliou significativamente minha compreensão técnica sobre a individualização da pena e proporcionou aprendizados práticos sobre a padronização e a eficiência do processo classificatório. A atuação conjunta com diferentes equipes e a imersão em realidades prisionais diversas fortaleceram minha percepção sobre os desafios da gestão penitenciária no país. Sigo exercendo essa coordenação com o compromisso de aprimorar continuamente os processos, promovendo um sistema mais justo, seguro e humanizado.

Direção da Penitenciária Especial Valentina de Figueiredo (atualmente): onde exerço, no presente momento, a função de diretora, aliando experiência, técnica e compromisso com a construção de um modelo prisional mais eficiente, legalista e pautado no respeito à dignidade humana.


Qual leitura você faz hoje do sistema prisional paraibano em comparação ao primeiro ano e quais lições/aprendizado você destacaria na sua trajetória profissional?


A leitura que faço hoje do sistema prisional paraibano, em comparação ao meu primeiro ano de atuação, é a de um campo em permanente construção, que, embora ainda enfrente desafios estruturais e operacionais significativos, apresenta avanços inegáveis. Ao longo dos anos, tem ocorrido uma transformação gradual na forma como o sistema é compreendido, tanto internamente quanto pela sociedade. Hoje, observa-se um esforço contínuo de institucionalização, com valorização da Polícia Penal enquanto força integrante da segurança pública e com crescente reconhecimento por parte das demais instituições e da população.

Nota-se também um fortalecimento das ações voltadas à capacitação dos servidores e à estruturação das unidades, ainda que, por vezes, as condições ideais estejam aquém do necessário. Apesar disso, é visível que tudo evolui: a visão estratégica, os fluxos operacionais, o papel das equipes técnicas e o compromisso com a dignidade humana.

Talvez o maior aprendizado da minha trajetória não tenha ocorrido exclusivamente no campo técnico — ainda que esse tenha sido amplamente desenvolvido —, mas sim no campo humanitário. Aprendi que, por trás de cada uniforme, seja do servidor ou da pessoa privada de liberdade, existem histórias, dores, potências e fragilidades. Desenvolver a capacidade de ouvir com empatia, decidir com justiça e liderar com equilíbrio tornou-se, para mim, um exercício diário. Foi nesse processo que compreendi que a verdadeira transformação do sistema penitenciário começa na forma como enxergamos o outro — com responsabilidade, mas, sobretudo, com humanidade.


Nos fale um pouco mais sobre a missão de dirigir uma cadeia, uma penitenciária, função que depende muito de uma equipe articulada, qualificada e compromissada.


Já exerci a função de direção e, atualmente, continuo à frente de uma penitenciária. Ao longo dessa trajetória, aprendi que o principal pilar de uma gestão eficiente é, sem dúvida, a gestão de pessoas. Sozinhos, não conseguimos construir nada. Uma unidade prisional é uma engrenagem complexa que depende de uma equipe articulada, qualificada e comprometida para funcionar de maneira eficaz e harmônica.

A gestão de uma unidade prisional não se resume apenas ao controle de segurança e à administração dos recursos materiais. Ela se estende à capacidade de liderar pessoas, de motivá-las, de incentivá-las a se engajar em sua missão e de criar um ambiente de trabalho que seja não apenas seguro, mas também respeitoso e humanizado. Uma liderança eficiente deve saber reconhecer o potencial de cada membro da equipe, incentivar a capacitação contínua e, principalmente, manter um canal de comunicação aberto e transparente, pois é a confiança mútua que sustenta a qualidade dos serviços prestados.

Além disso, a missão de dirigir uma unidade prisional vai além da simples execução das normas. Trata-se de gerir um ambiente de alta complexidade, onde as situações adversas são frequentes, e a capacidade de lidar com o imprevisto e de agir com rapidez e precisão é essencial. A articulação e a qualificação das equipes não apenas garantem a segurança, mas também a realização de ações de ressocialização, fundamentais para que possamos cumprir, com dignidade, o nosso papel no sistema penitenciário.


Para você, o que representa ser policial penal, integrar a mais jovem Força de Segurança Pública da Paraíba?


Quando comecei minha trajetória profissional, não sonhei em fazer parte da Polícia Penal. O meu desejo era ser professora, uma profissão pela qual tenho grande carinho e pela qual exerci com dedicação durante seis anos. Desde pequena, sonhei em conquistar a estabilidade de um cargo público, mas até então, pouco entendia sobre o sistema prisional. Quando surgiu a oportunidade de um concurso aberto para o Sistema Penitenciário, aproveitei a chance sem saber o quanto essa decisão iria transformar a minha vida.

O que me surpreendeu foi o profundo vínculo de identificação que fui capaz de desenvolver ao longo dos anos com a Polícia Penal. A cada desafio, a cada experiência vivida, fui me apaixonando pela missão que a profissão exige, pela importância de atuar com segurança, disciplina e, principalmente, com humanidade. O que inicialmente parecia ser uma oportunidade de estabilidade se transformou em uma paixão pela profissão e pelo papel fundamental que desempenhamos na sociedade.

Hoje, sonho em ver a Polícia Penal cada vez maior, mais valorizada e reconhecida por sua importância dentro do sistema de segurança pública. Ao longo dos anos, aprendi a valorizar não só o meu papel como profissional, mas também a necessidade de construir uma corporação que respeite os princípios da justiça, da dignidade e da segurança para todos os envolvidos. A profissão me proporcionou um crescimento imenso, e, embora o caminho tenha sido desafiador, ele é, sem dúvida, gratificante.


Quais os desafios seus enquanto agente essencial nesse processo de formação da Polícia Penal e por consequência na evolução do sistema prisional do estado?


Os desafios que enfrento como policial penal na formação e evolução do sistema prisional do estado são muitos e atravessam tanto a dimensão institucional quanto a pessoal. Em um contexto de crescente complexidade na segurança pública, minha função exige atualização constante, preparo técnico e emocional, e uma postura de liderança firme, equilibrada e humana.

 

Como mulher e mãe atípica, carrego desafios adicionais: conciliar uma rotina profissional intensa com os cuidados familiares e emocionais que minha realidade exige. A maternidade atípica me ensina, todos os dias, sobre resiliência, empatia e gestão do tempo — habilidades que também aplico na minha atuação dentro da penitenciária.

Além disso, é impossível ignorar as questões de gênero que ainda atravessam nosso cotidiano institucional. A ocupação de espaços de liderança feminina na Polícia Penal exige enfrentamento constante de barreiras estruturais e culturais. Não buscamos privilégios, mas sim equidade: condições adequadas, reconhecimento e respeito à nossa atuação, sem invisibilizações ou estereótipos.

Enfrento o desafio diário de ser referência para minha equipe e, ao mesmo tempo, não deixar que o peso da função apague minha identidade e minha humanidade. Ainda assim, sigo motivada pela convicção de que a transformação do sistema passa também por nós, mulheres que constroem, com coragem e competência, uma segurança pública mais justa, forte e humana.


Opine sobre essa produção literária dos últimos anos específica sobre o sistema prisional, a Polícia Penal. Você considera relevante contribuir, ser personagem, autor de artigos, de livros neste campo, escrevendo as primeiras páginas da história quase centenária da Seap-PB?


Sou entusiasta e defensora da produção literária voltada ao sistema prisional e à Polícia Penal. Considero essas iniciativas não apenas relevantes, mas fundamentais para o fortalecimento da nossa identidade institucional. O que está escrito jamais será esquecido — e é por meio da escrita que registramos nossas vivências, desafios, avanços e também nossas dores, garantindo que a memória não se perca com o tempo.

A história do sistema prisional da Paraíba, especialmente no que diz respeito à Polícia Penal, ainda é recente enquanto força de segurança pública formalmente reconhecida. Estamos escrevendo as primeiras páginas dessa trajetória, e ser parte disso — não apenas como personagem, mas também como autora — é, para mim, um ato de responsabilidade histórica.

Publicações que nascem da experiência concreta, da escuta sensível e da reflexão crítica têm o poder de inspirar, provocar mudanças e ampliar o reconhecimento da complexidade do nosso trabalho. Registrar o que vivemos é valorizar a instituição, os servidores e também os movimentos de transformação que vêm sendo construídos com muito esforço ao longo dos anos.

A escrita, nesse contexto, é resistência, memória e também projeção de futuro. Por isso, sigo contribuindo e incentivando esse tipo de iniciativa, com a certeza de que contar a nossa própria história é uma das formas mais legítimas de garantir respeito, permanência e evolução.


Já escreveu ou pretende escrever livro autoral ou com colegas parceiros sobre temáticas relacionadas ao sistema prisional?


Sim, já participei da obra "Mulheres que fazem acontecer no Sistema Penitenciário da Paraíba", um livro que reúne vozes femininas atuantes no sistema prisional e que, com sensibilidade e força, compartilham suas experiências, desafios e conquistas. Foi uma honra contribuir com esse projeto e poder eternizar parte da minha trajetória por meio da escrita — especialmente com uma poesia em que homenageei duas mulheres que admiro profundamente: magistradas que, para mim, simbolizam compromisso e justiça — além de narrar minha própria caminhada de vida. Acredito que escrever sobre o sistema prisional é também uma forma de reconhecimento e valorização de quem constrói essa história todos os dias, muitas vezes em silêncio. Tenho interesse em continuar escrevendo, seja de forma individual ou em parceria com colegas, pois compreendo que há um vasto campo ainda a ser explorado — não apenas em aspectos técnicos, mas também nas dimensões humanas, institucionais e sociais. Registrar nossas vivências é um ato político, pedagógico e histórico. 

Alimento, ainda, o desejo de talvez um dia escrever uma obra autoral que una minhas experiências como mulher, policial penal e mãe atípica. Escrever, para mim, é também uma forma de resistência e legado.


PERFIL 

Nome completo: MIRTES DANIELE DA SILVA

Local e data de nascimento: João Pessoa/PB, 02 de janeiro de 1987.

Filiação: Lenivaldo Daniel da Silva e Mirtes Bezerra da Silva

Formação: Cursos/Especializações: Gestão em Segurança Pública com Especialização em perfis criminais e comportamentais.

Ingresso no Sistema Penitenciário da Paraíba: 26 de setembro de 2012




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