A crônica a seguir está publicada no livro Mulheres que fazem acontecer no sistema penitenciário da Paraíba, coletânea escrita por 35 mulheres. O projeto editorial é do jornalista e policial penal Josélio Carneiro de Araújo, idealizador da obra. O livro está disponível no Instagram da Escola de Gestão Penitenciária da Paraíba (EGEPEN-PB) e Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SEAP-PB).
Sou também assistente
social, profissão que hoje não exerço, em razão das escolhas que a vida nos
traz.
Sou cristã, católica,
apostólica, romana, Mariana e consagrada celibatária da Comunidade Católica
Shalom, mãe biológica ímpar de Diego, mas espiritualmente de um pequeno prelado,
desde que tutelei em minha soberania o padre Mário, o outro, também ímpar.
Faço parte da Educação em
prisões, e no Sistema Prisional, aprendi a juntar e iluminar o caminho para
alcançar os dois abismos da luz para o conhecimento.
Devoto-me professora.
Dois Abismos
Existem fases em nossas vidas marcadas por sonhos: na nossa meninice, com nossas fantasias intrépidas e heroicas, trago as memórias de uma moleca, criada e enlaçada a mais três irmãos, infantes fedelhos que, desde cedo, compartilharam comigo imaginários mesclados de “rosas” e “azuis”, casinhas e bonecas, de corpos plásticos rijos, de pano ou de papel, junto a bolas, de futebol ou de gude, entre lacinhos e gravatinhas, num embaralhado de choros congregados que nos tornavam afeiçoados e configurados semelhantes; lá nas quimeras da infância, com nossas optações profissionais, nos teatros no fundo do quintal com uma plateia ancestral, que nos “pagavam” para lhes proporcionarmos momentos de jubilação ou de brechas nas constantes vigilâncias, soltos na rua, nos jogos de , barra-bandeira, pega-pega, ou ainda montados nas famosas bicicletas, que pouco a pouco nos introduziam nas ruas desse mundaréu que um dia seria nosso melhor palco; quando na imaturidade juvenil, com nossa necessidade de autossuficiência, nos encontros e flertes dissimulados na Pracinha de Solânea, nas escapulidas do Colégio Estadual para dançar as 30 noites nas peculiares ruas, enfeitadas com balões e bandeirolas, durante as consagradas quadrilhas “puxadas” pelo avô, Antônio Vaz, ou até mesmo nos embalos dos “assustados” que envolviam as melancólicas tardes dominicais. São tantas circunstâncias favoráveis, cenários esperançosos, que nos arrastam pouco a pouco a escolhas que nos destinam a caminhos e trajetos que nos definirão como sujeitos.
Ser adulto é uma
confluência de sonhos, cumpridos, alcançados... ou não. São esses, e as
oportunidades, que se cruzando, nos fincam num terreno real e concreto, onde cravamos
todos esses anseios. Fazem parte de nosso imaginário, planos e perspectivas de
vidas, que nos levarão, pouco a pouco, aos caminhos reais, tangíveis, adultos,
de sujeitos carregados de vivências. A minha experiência foi essa, a do outro,
certamente desigual, talvez melhor, ou pior, os leva a outras distintas estradas.
O lado onde me encontro, o que me foi oferecido, o que me foi permitido,
facilitado e provocado, sentenciou essa peleja de aspirações e conquistas, de
perspectivas e entraves, por isso, de ser circense à pediatra foi um pulo.
Deixei o espetáculo e fui em busca de mudar a vida do meu respeitável público.
Nesse cenário concebido,
aos 15 anos, nessa imaturidade juvenil, entrava na UFPB para cursar Serviço
Social. Sim, uma adolescente matuta entregue aos hodiernos perspicazes “leões” da
Universidade. Era o curso dos meus “sonhos”, da junção de uma vida humilde,
livre, emancipada, que trazia o desejo daquela super-heroína latente que
acreditava poder mudar o mundo, perceptivelmente molestado e dolorido em que me
encontrava, isso já há quatro décadas. Tive fantasias, mas também
oportunidades. Finalizei o curso que me faria outra vez protagonista, no desejo
de metamorfosear a humanidade, cuidar, curar, remediar, desejosa de
concretamente reorientar aquele mundo caótico, mas as circunstâncias me levaram
a renunciar a minha valentia homérica. O mundo venceu minha fantasia. Em minha
formatura carregava comigo um presente, meu filho Diego, e para propiciar uma
vida melhor, retornamos à nossa pequena cidade, para recomeçar, na década de
80. Creio que ser assistente social não era o plano Divino para mim... Deus, em
meio às minhas mutações e resiliências, me permitiu uma mudança brusca: o ser
professora. Existe coragem maior que a intrepidez e a bravura de um mestre?
Assim, cursei Letras e enveredei pelo caminho da educação. Anos de aprendizagem,
experiências acumuladas, vitórias, alegrias, obstáculos e desafios incontáveis.
Uma vida “professorando”.
Vivi por anos pisando
nesse terreno fértil, florido, plano, facilitador de minhas idas e vindas às
vidas a mim entregues para educar. Foram várias escolas, públicas e privadas,
lecionei para crianças, jovens, adultos, mas essa esfera serena e imperturbável
já estava por demais blasé. Então irrompeu, por uma necessidade momentânea, mas
em meio a coincidências e providências Divinas, uma insólita promessa: educar
no Sistema Prisional! Algo totalmente extemporâneo, um território novo,
arrematado de asperezas, onde o que era nivelado tornou-se íngreme e anguloso. Entre
deduções, percepções e assimilações, peregrinei de corpo e alma nesse
itinerário novo e singular, que me mostrava uma meta de trabalho. Mas uma coisa
me incomodava, um grandioso e extremo abismo, que me separava daqueles que eu
pensava jamais iria alcançar: homens e mulheres separados, isolados, impossibilitados
de se aprimorarem e alcançarem o terreno onde eu estava, essa terra fecunda,
generosa, que assevera de maneira atingível o tão esperado retorno... o meu
solo, meu universo, invulnerado, pleno de certezas, de harmonia, de fixidez. De
cá, da brecha, profunda, um precipício de segurança, de lá, uma vastidão de
dureza, enrijecimento e indiligência. Era um campo visivelmente dividido,
partido, e nesse grande buraco, rasgando as poucas possibilidades de ser
transpassado, a ausência do amálgama. Dois abismos. Duas realidades.
Eu ainda não compreendia
que esse abismo era visto pelos dois lados, eu de cá, eles de lá... ambos
incapazes de atravessar.
De alguma maneira aquilo
me doía. Mas como já dizia Isaac Newton, “Construímos muros demais e pontes de
menos” ... Um dia, uma ponte se fez: dois abismos se encontraram, num convite
recebido, um aceno para o inédito, novos rumos. Precisei dar grandes saltos
para primeiro abeirar o outro lado, até conseguir firmar meus pés nesse novo terreno,
aparentemente tão frívolo e, ao mesmo tempo tão versátil: a verdadeira educação
em prisões. Pouco a pouco, tornei-me bandoleira entre tantas almas marginais,
mas muito mais “marginalizadas”, sedentas da liberdade do corpo, e no lampejo
de um projeto, do colóquio e da prosa vislumbrado através da “Remição pela
Leitura”, foram encontrando a liberdade da alma. Junto à minha parceira de trabalho
nessa empreitada, e, pasmem, cúmplice do lado de cá e ex-aluna, Dayse,
adentramos nesse prado mágico, em busca desconhecido, do inusitado despertar de
tantas personalidades distintas.
Lançar um projeto que
fizesse do arcaico, o atual, que trouxesse um pensamento hodierno em meio à
ancestralidade corriqueira, tornou-se um grande desafio. Busquei inspiração nos
trabalhos que eu já havia criado e desenvolvido nos meus anos como professora,
e fui ilumiada, ao perceber que poderia reconfigurar o antigo, concebendo nele
uma nova forma de abordar a Remição pela Leitura, reformada, metamorfoseada,
que permitiu tocar a alma esfarelada de tantos homens e mulheres reclusos,
solitários em meio a uma agoniada e fragmentada divisão.
Aplicar o “novo modelo”
foi crucial para o desmembramento do debilitado método então utilizado, e, aos
poucos, alunos que antes sequer acessavam ou rondavam livros, foram tomando gosto
pelo Projeto, pela leitura, aproximados primeiramente pelos dias a remir, mas
atraídos pouco a pouco pelas aventuras e peripécias que só um livro poderia proporcionar.
Uma alforria momentânea, uma escapulida, um apalpar no externo, sem dali tirar
os pés. Alguns, com tão pouca instrução, mas seduzidos que foram, descoberto,
leitores, atacavam as pequenas obras.
Gradativamente, diante de
limitadas vergonhas, desprovidos de letras, conhecemos primorosos leitores,
sedentos do desconhecido e dos ilusórios seres que só podiam ser encontrados através
daquelas obras.
Foi nesse momento que
percebi essa fusão: os dois abismos se encontraram, afunilados pelo mesmo
desejo, o do despertar das palavras, palavras essas encantadoras, sedutoras, que
norteiam um mundo magnífico, o mundo da liberdade.
Como nada é eterno, hoje
retornei às salas, num encontro diferente, ainda tocando a vida daqueles alunos
sonhadores, daqueles ouvidos tantas vezes desatentos, de olhares amargos, desesperançosos,
doloridos, mas que ainda enxergam a expectação de novo.
Como boa Guadalupana que
sou, acredito em milagres, acredito em ações e em reações. As atitudes mudaram,
as condutas já eram outras, a inclinação era evidente: remir, purgar, regenerar,
fez-se redimir, fez-se resgatar, salvar. Sim, os livros, o Projeto, os salvou e
os salva. Só agradeço pela oportunidade de poder pisar esse solo único,
legítimo, e possível... desde que não se tenha medo de pular longe, fora, além,
de se jogar, se atirar, para vislumbrar, ou, quem dera, alcançar o alvo. Mas
tem que querer pular, experimentar o pulo, experenciar a execução...
Eu pulei. Quer um
empurrãozinho?
Que texto lindo 👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾
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