domingo, 30 de março de 2025

Artigo: Dois Abismos, por Nilda Vaz, educadora

 

A crônica a seguir está publicada no livro Mulheres que fazem acontecer no sistema penitenciário da Paraíba, coletânea escrita por 35 mulheres. O projeto editorial é do jornalista e policial penal Josélio Carneiro de Araújo, idealizador da obra. O livro está disponível no Instagram da Escola de Gestão Penitenciária da Paraíba (EGEPEN-PB) e Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SEAP-PB).   


https://paraiba.pb.gov.br/diretas/secretaria-de-administracao-penitenciaria/arquivos/mulheres-que-fazem-acontecer-miolo-26_05_2024-1.pdf



 Nasci Reginilda, em homenagem às minhas duas avós: Regina, que significa rainha, indica voluntarismo e firmeza de decisão, é próprio de mulheres que, da mesma forma que os antigos sofistas gregos, usam todos os recursos verbais para convencer seus interlocutores, e Nilda, que significa “linda”, “suave”, “afável”, “guerreira”. Pois bem, sou mais guerreira que rainha, e assim, tornei-me a professora Nilda Vaz, um himeneu de monarca com gladiadora, no meu pequeno, porém aguerrido reino academicista.

Sou também assistente social, profissão que hoje não exerço, em razão das escolhas que a vida nos traz.

Sou cristã, católica, apostólica, romana, Mariana e consagrada celibatária da Comunidade Católica Shalom, mãe biológica ímpar de Diego, mas espiritualmente de um pequeno prelado, desde que tutelei em minha soberania o padre Mário, o outro, também ímpar.

Faço parte da Educação em prisões, e no Sistema Prisional, aprendi a juntar e iluminar o caminho para alcançar os dois abismos da luz para o conhecimento.

Devoto-me professora.


Dois Abismos


Existem fases em nossas vidas marcadas por sonhos: na nossa meninice, com nossas fantasias intrépidas e heroicas, trago as memórias de uma moleca, criada e enlaçada a mais três irmãos, infantes fedelhos que, desde cedo, compartilharam comigo imaginários mesclados de “rosas” e “azuis”, casinhas e bonecas, de corpos plásticos rijos, de pano ou de papel, junto a bolas, de futebol ou de gude, entre lacinhos e gravatinhas, num embaralhado de choros congregados que nos tornavam afeiçoados e configurados semelhantes; lá nas quimeras da infância, com nossas optações profissionais, nos teatros no fundo do quintal com uma plateia ancestral, que nos “pagavam” para lhes proporcionarmos momentos de jubilação ou de brechas nas constantes vigilâncias, soltos na rua, nos jogos de , barra-bandeira, pega-pega, ou ainda montados nas famosas bicicletas, que pouco a pouco nos introduziam nas ruas desse mundaréu que um dia seria nosso melhor palco; quando na imaturidade juvenil, com nossa necessidade de autossuficiência, nos encontros e flertes dissimulados na Pracinha de Solânea, nas escapulidas do Colégio Estadual para dançar as 30 noites nas peculiares ruas, enfeitadas com balões e bandeirolas, durante as consagradas quadrilhas “puxadas” pelo avô, Antônio Vaz, ou até mesmo nos embalos dos “assustados” que envolviam as melancólicas tardes dominicais. São tantas circunstâncias favoráveis, cenários esperançosos, que nos arrastam pouco a pouco a escolhas que nos destinam a caminhos e trajetos que nos definirão como sujeitos.

Ser adulto é uma confluência de sonhos, cumpridos, alcançados... ou não. São esses, e as oportunidades, que se cruzando, nos fincam num terreno real e concreto, onde cravamos todos esses anseios. Fazem parte de nosso imaginário, planos e perspectivas de vidas, que nos levarão, pouco a pouco, aos caminhos reais, tangíveis, adultos, de sujeitos carregados de vivências. A minha experiência foi essa, a do outro, certamente desigual, talvez melhor, ou pior, os leva a outras distintas estradas. O lado onde me encontro, o que me foi oferecido, o que me foi permitido, facilitado e provocado, sentenciou essa peleja de aspirações e conquistas, de perspectivas e entraves, por isso, de ser circense à pediatra foi um pulo. Deixei o espetáculo e fui em busca de mudar a vida do meu respeitável público.

Nesse cenário concebido, aos 15 anos, nessa imaturidade juvenil, entrava na UFPB para cursar Serviço Social. Sim, uma adolescente matuta entregue aos hodiernos perspicazes “leões” da Universidade. Era o curso dos meus “sonhos”, da junção de uma vida humilde, livre, emancipada, que trazia o desejo daquela super-heroína latente que acreditava poder mudar o mundo, perceptivelmente molestado e dolorido em que me encontrava, isso já há quatro décadas. Tive fantasias, mas também oportunidades. Finalizei o curso que me faria outra vez protagonista, no desejo de metamorfosear a humanidade, cuidar, curar, remediar, desejosa de concretamente reorientar aquele mundo caótico, mas as circunstâncias me levaram a renunciar a minha valentia homérica. O mundo venceu minha fantasia. Em minha formatura carregava comigo um presente, meu filho Diego, e para propiciar uma vida melhor, retornamos à nossa pequena cidade, para recomeçar, na década de 80. Creio que ser assistente social não era o plano Divino para mim... Deus, em meio às minhas mutações e resiliências, me permitiu uma mudança brusca: o ser professora. Existe coragem maior que a intrepidez e a bravura de um mestre? Assim, cursei Letras e enveredei pelo caminho da educação. Anos de aprendizagem, experiências acumuladas, vitórias, alegrias, obstáculos e desafios incontáveis. Uma vida “professorando”.

Vivi por anos pisando nesse terreno fértil, florido, plano, facilitador de minhas idas e vindas às vidas a mim entregues para educar. Foram várias escolas, públicas e privadas, lecionei para crianças, jovens, adultos, mas essa esfera serena e imperturbável já estava por demais blasé. Então irrompeu, por uma necessidade momentânea, mas em meio a coincidências e providências Divinas, uma insólita promessa: educar no Sistema Prisional! Algo totalmente extemporâneo, um território novo, arrematado de asperezas, onde o que era nivelado tornou-se íngreme e anguloso. Entre deduções, percepções e assimilações, peregrinei de corpo e alma nesse itinerário novo e singular, que me mostrava uma meta de trabalho. Mas uma coisa me incomodava, um grandioso e extremo abismo, que me separava daqueles que eu pensava jamais iria alcançar: homens e mulheres separados, isolados, impossibilitados de se aprimorarem e alcançarem o terreno onde eu estava, essa terra fecunda, generosa, que assevera de maneira atingível o tão esperado retorno... o meu solo, meu universo, invulnerado, pleno de certezas, de harmonia, de fixidez. De cá, da brecha, profunda, um precipício de segurança, de lá, uma vastidão de dureza, enrijecimento e indiligência. Era um campo visivelmente dividido, partido, e nesse grande buraco, rasgando as poucas possibilidades de ser transpassado, a ausência do amálgama. Dois abismos. Duas realidades.

Eu ainda não compreendia que esse abismo era visto pelos dois lados, eu de cá, eles de lá... ambos incapazes de atravessar.

De alguma maneira aquilo me doía. Mas como já dizia Isaac Newton, “Construímos muros demais e pontes de menos” ... Um dia, uma ponte se fez: dois abismos se encontraram, num convite recebido, um aceno para o inédito, novos rumos. Precisei dar grandes saltos para primeiro abeirar o outro lado, até conseguir firmar meus pés nesse novo terreno, aparentemente tão frívolo e, ao mesmo tempo tão versátil: a verdadeira educação em prisões. Pouco a pouco, tornei-me bandoleira entre tantas almas marginais, mas muito mais “marginalizadas”, sedentas da liberdade do corpo, e no lampejo de um projeto, do colóquio e da prosa vislumbrado através da “Remição pela Leitura”, foram encontrando a liberdade da alma. Junto à minha parceira de trabalho nessa empreitada, e, pasmem, cúmplice do lado de cá e ex-aluna, Dayse, adentramos nesse prado mágico, em busca desconhecido, do inusitado despertar de tantas personalidades distintas.

Lançar um projeto que fizesse do arcaico, o atual, que trouxesse um pensamento hodierno em meio à ancestralidade corriqueira, tornou-se um grande desafio. Busquei inspiração nos trabalhos que eu já havia criado e desenvolvido nos meus anos como professora, e fui ilumiada, ao perceber que poderia reconfigurar o antigo, concebendo nele uma nova forma de abordar a Remição pela Leitura, reformada, metamorfoseada, que permitiu tocar a alma esfarelada de tantos homens e mulheres reclusos, solitários em meio a uma agoniada e fragmentada divisão.

Aplicar o “novo modelo” foi crucial para o desmembramento do debilitado método então utilizado, e, aos poucos, alunos que antes sequer acessavam ou rondavam livros, foram tomando gosto pelo Projeto, pela leitura, aproximados primeiramente pelos dias a remir, mas atraídos pouco a pouco pelas aventuras e peripécias que só um livro poderia proporcionar. Uma alforria momentânea, uma escapulida, um apalpar no externo, sem dali tirar os pés. Alguns, com tão pouca instrução, mas seduzidos que foram, descoberto, leitores, atacavam as pequenas obras.

Gradativamente, diante de limitadas vergonhas, desprovidos de letras, conhecemos primorosos leitores, sedentos do desconhecido e dos ilusórios seres que só podiam ser encontrados através daquelas obras.

Foi nesse momento que percebi essa fusão: os dois abismos se encontraram, afunilados pelo mesmo desejo, o do despertar das palavras, palavras essas encantadoras, sedutoras, que norteiam um mundo magnífico, o mundo da liberdade.

Como nada é eterno, hoje retornei às salas, num encontro diferente, ainda tocando a vida daqueles alunos sonhadores, daqueles ouvidos tantas vezes desatentos, de olhares amargos, desesperançosos, doloridos, mas que ainda enxergam a expectação de novo.

Como boa Guadalupana que sou, acredito em milagres, acredito em ações e em reações. As atitudes mudaram, as condutas já eram outras, a inclinação era evidente: remir, purgar, regenerar, fez-se redimir, fez-se resgatar, salvar. Sim, os livros, o Projeto, os salvou e os salva. Só agradeço pela oportunidade de poder pisar esse solo único, legítimo, e possível... desde que não se tenha medo de pular longe, fora, além, de se jogar, se atirar, para vislumbrar, ou, quem dera, alcançar o alvo. Mas tem que querer pular, experimentar o pulo, experenciar a execução...

Eu pulei. Quer um empurrãozinho?

Um comentário:

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