sexta-feira, 5 de junho de 2026

De poesia a pesquisa científica: congresso nacional reuniu militares escritores de 15 estados em João Pessoa

 

II CONAMBRAS transformou a capital paraibana em ponto de encontro da produção intelectual de policiais e bombeiros militares de todo o país





Foto durante o lançamento de livros no II CONAMBRAS, no sentido horário: Acad. Walber Rufino (Presidente da ALMEP), Escritor Pedro Neto, Acad. Carlos Augusto Furtado Moreira (Presidente da ALMEBRAS) e Acad. Boisbaudran Imperiano (Presidente APD).



João Pessoa sediou, nos dias 2 e 3 de junho, um encontro que ajudou a revelar uma face pouco conhecida das corporações militares brasileiras. Longe dos quartéis e das atividades operacionais, policiais e bombeiros militares de diversas regiões do país estiveram reunidos para discutir literatura, história, ciência, memória institucional e produção cultural durante o II Congresso Nacional das Academias de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal (II CONAMBRAS).

Promovido pela Academia de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal (ALMEBRAS) e pela Academia de Letras dos Militares Estaduais da Paraíba (ALMEP), o congresso aconteceu no Centro de Educação e Cultura Institucional da Polícia Militar da Paraíba, reunindo cerca de 150 participantes entre acadêmicos, escritores, pesquisadores, historiadores e representantes das forças públicas estaduais.



Ao longo dos dois dias, a programação incluiu conferências, palestras, oficinas, lançamentos de livros, apresentações culturais, debates sobre patrimônio histórico, preservação da memória, produção literária, pesquisa científica e fortalecimento institucional.


Para o presidente da Academia Paraibana de Direito, Boisbaudran Imperiano, uma das instituições apoiadoras do evento, o congresso demonstrou que a produção cultural militar vai muito além dos temas ligados à segurança pública.

“Muito embora seja um congresso de academias de letras militares, tratamos da cultura produzida por escritores, poetas e pesquisadores das mais diversas áreas. Tivemos lançamento de obras de poesia, de saúde, de direito e de vários outros campos do conhecimento. O foco não é apenas o militar, mas a cultura de uma forma geral.”

Segundo ele, um dos principais resultados do encontro foi a criação de uma rede nacional de intercâmbio intelectual.

“O congresso permite networking cultural, troca de experiências e aproximação entre academias de diferentes estados. Além disso, deixa para a sociedade um legado importante: escritores de todo o Brasil apresentando suas obras e compartilhando conhecimento.”

Atualmente, o Brasil possui 15 academias de letras militares estaduais. O presidente da Academia de Letras dos Militares do Brasil e da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares, coronel Carlos Augusto Furtado Moreira, explicou que o congresso surgiu justamente para integrar essa produção intelectual.

“O Congresso Nacional das Academias de Letras vem aglutinar as propostas de literatura, artes e ciências produzidas por policiais militares e bombeiros militares de todo o país. Realizamos o primeiro congresso há quatro anos, em São Luís, e agora tivemos a satisfação de realizar a segunda edição em João Pessoa.”

Furtado também destacou que ainda existe um equívoco sobre o trabalho desenvolvido pelas academias militares.

“As academias de letras militares não atuam exclusivamente na literatura militar. Elas também produzem crônicas, contos, poesias, romances e pesquisas científicas. É uma produção muito mais ampla do que muitas pessoas imaginam.”

A diversidade temática ficou evidente nos lançamentos literários realizados durante o congresso. Um dos destaques foi o livro O Mapa da Pele, do escritor maranhense Pedro Neto, que aborda a hanseníase por meio da literatura.

A obra acompanha a trajetória de um jovem que enfrenta a doença e o preconceito, utilizando a narrativa ficcional como ferramenta de conscientização social.

“Nossa intenção é que o livro não seja apenas uma obra literária, mas também um instrumento de informação. Queremos contribuir para ampliar o conhecimento sobre a hanseníase e ajudar a combater o preconceito que ainda existe em torno da doença”, afirmou o autor.

Produção intelectual e aproximação com a sociedade

Para o presidente da ALMEP, coronel Walber Rufino Tavares, o congresso representou um momento de valorização da leitura, da pesquisa e da produção intelectual dentro das corporações.

“Esse evento deixa para a sociedade e para os membros das academias um grande momento de reflexão. É um espaço que fortalece a leitura, incentiva a produção intelectual e valoriza a cultura.”

Segundo ele, o encontro reuniu literatura, ciência e manifestações artísticas em uma mesma programação.

“Aqui temos lançamentos de livros, recitação de poesias, apresentações musicais, produção científica e atividades culturais. É um evento que envolve diferentes formas de conhecimento.”

A mesma avaliação foi compartilhada pelo vice-presidente da ALMEP, Onivan Elias.

“O principal objetivo do congresso é estimular policiais militares e bombeiros militares de todos os estados a desenvolverem suas potencialidades culturais e artísticas, preservando também os valores históricos e as tradições das instituições militares estaduais.”

Para o coronel Anchieta Rodrigues, do Rio Grande do Sul, fundador da ALMEBRAS, a produção intelectual desenvolvida por militares ainda é pouco conhecida pela população.

“Queremos mostrar à comunidade que os militares estaduais também pesquisam, escrevem, produzem conhecimento, fazem poesia e ciência. Temos mestres, doutores e pesquisadores que contribuem para a sociedade por meio da produção intelectual.”

O acadêmico e fundador da ALMEP, coronel Batista Lima, destacou o caráter formativo do encontro. Segundo ele, o congresso proporcionou uma rica troca de experiências entre representantes de academias de diversos estados, permitindo o compartilhamento de conhecimentos em áreas como literatura, liderança e produção intelectual.

“Estivemos reunidos com 14 entidades congêneres e percebemos o entusiasmo de todos nas palestras e debates. Discutimos poesia, técnicas literárias, liderança e outros temas que ampliam nossa visão e fortalecem o trabalho desenvolvido pelas academias”, afirmou.

Batista Lima ressaltou ainda que parte importante do evento aconteceu fora dos auditórios, nos momentos de convivência e intercâmbio entre os participantes.

Mulheres, cultura e memória

A participação feminina também marcou os debates do congresso. Integrante da Academia Potiguar de História e Cultura Militar e da ALMEBRAS, Martha Carvalho destacou a importância da literatura como ferramenta de preservação da memória e de valorização de trajetórias muitas vezes invisibilizadas.

“Eventos como este fortalecem a literatura e ampliam o diálogo para além do ambiente militar. A produção literária é uma forma de preservar histórias, registrar experiências e compartilhar conhecimento.”

Programação reuniu palestras, oficinas e apresentações culturais

Entre os destaques da programação estiveram a conferência magna sobre preservação dos espaços de memória, oficinas de poesia, liderança e educação financeira, lançamentos de livros, apresentações culturais e debates sobre patrimônio histórico e identidade das forças públicas.

No segundo dia do congresso, a programação incluiu palestras sobre a trajetória de Euclides da Cunha, patrimônio sonoro das corporações militares, reuniões estratégicas entre as academias estaduais e homenagens a personalidades civis e militares que contribuem para a preservação da memória e da cultura.

O encerramento contou ainda com a divulgação da cidade-sede do III CONAMBRAS, previsto para acontecer em 2027, em Palmas, no Tocantins.

Mais do que um encontro acadêmico, o congresso buscou consolidar uma rede nacional dedicada à preservação da memória institucional, ao incentivo à leitura e à valorização da produção intelectual de policiais e bombeiros militares, aproximando esse patrimônio cultural da sociedade brasileira.

 

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